
A movimentação política de Ibaneis Rocha acendeu um alerta no cenário do DF e expôs uma contradição difícil de ignorar. No sábado (16), em entrevista ao programa Vozes da Comunidade, o ex-governador descartou a possibilidade de um plano B para a disputa ao GDF e reafirmou publicamente o compromisso com Celina Leão.
Na ocasião, Ibaneis foi direto ao dizer que havia lançado a candidatura de Celina ainda no início de seu segundo governo e que sempre cumpriu o compromisso assumido com ela. “Assim como a Celina é uma mulher de palavra, eu também sou um homem de palavra”, declarou.
Poucos dias depois, no entanto, o discurso mudou de tom. Em vídeo publicado nas redes sociais, Ibaneis apareceu reunido em sua residência com o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, o deputado federal Rafael Prudente e o presidente do MDB-DF, Wellington Luiz. No encontro, lideranças da legenda defenderam que o partido não abrirá mão de espaço na chapa majoritária e falaram em “realinhamento de posições”.
A palavra escolhida foi realinhamento, mas o gesto soou como recuo político. Para quem acompanhou a fala do próprio Ibaneis dias antes, a movimentação deixou a impressão de que a lealdade prometida em público passou a ser relativizada nos bastidores partidários.
Celina reagiu com firmeza. A governadora afirmou que recebeu a declaração com serenidade, mas deixou claro que sucessão não significa submissão. “As pessoas precisam entender que sucessão nunca será submissão”, disse.
A resposta de Celina foi além da disputa eleitoral. A governadora afirmou que foi leal enquanto ocupou o cargo de vice, inclusive em momentos difíceis, mas ressaltou que agora está à frente do GDF e precisa governar com autonomia. Segundo ela, a prioridade neste momento não é a campanha, mas a solução de problemas herdados, como a crise no BRB e o rombo bilionário nas contas públicas.
O desgaste ficou evidente também nos comentários do próprio post de Ibaneis. Parte dos usuários saiu em defesa de Celina e cobrou clareza do MDB. Uma internauta escreveu: “Mulheres vamos ajudar Celina, precisamos nos unir”. Outra comentou que Celina deveria “continuar firme” e afirmou que o DF precisa de saúde de qualidade.
Houve também quem questionasse diretamente a posição do partido. “Falou, falou e não disse, MDB tá pulando fora ou tá apoiando a Celina?”, escreveu um usuário. A pergunta resume a confusão deixada pelo vídeo: afinal, o MDB segue com Celina ou passou a condicionar o apoio ao tamanho do espaço que terá na chapa?
Outros comentários foram ainda mais duros contra Ibaneis. Uma usuária escreveu “nunca mais para nada” ao marcar o perfil do ex-governador. Em outra manifestação, uma internauta citou o caso Banco Master/BRB e afirmou que o DF não aceitaria um governo liderado por quem, na visão dela, envolveu o Estado em um dos maiores escândalos do momento.
As reações mostram que o movimento de Ibaneis pode ter produzido o efeito contrário ao esperado. Ao tentar demonstrar força interna no MDB, o ex-governador acabou reacendendo a comparação entre o compromisso assumido publicamente com Celina e a nova articulação partidária.
Em política, palavra tem peso. Quando um líder afirma em público que não há plano B e, dias depois, aparece em uma reunião cobrando reposicionamento e espaço na chapa, a mensagem transmitida é de instabilidade. E instabilidade, neste momento, é exatamente o que Celina tenta afastar ao se apresentar como uma governadora com comando próprio.
A fala mais forte da governadora talvez tenha sido justamente a mais simples: sucessão não é submissão. A frase expõe o ponto central da crise. Celina pode ter sido lançada por Ibaneis, mas hoje ocupa o cargo de governadora. E, ao assumir o comando do GDF, também assumiu o direito de tomar decisões que nem sempre agradarão aos padrinhos políticos.
No fim, a reunião do MDB não apenas pressionou Celina. Ela também colocou Ibaneis diante de sua própria declaração. O ex-governador disse ser homem de palavra. Agora, a população observa se essa palavra continua valendo ou se foi apenas mais uma frase dita antes do próximo movimento de bastidor.



