Queimadas no DF disparam em agosto e El Niño aumenta risco até o fim da seca

Bombeiros combateram 605 incêndios em vegetação nos dez primeiros dias do mês; calor, baixa umidade e previsão de chuvas abaixo da média mantêm o Distrito Federal em alerta

O Distrito Federal entrou na fase mais perigosa da temporada de queimadas. Somente nos dez primeiros dias de agosto, o Corpo de Bombeiros Militar do DF combateu 605 incêndios em vegetação. O volume já corresponde a mais da metade das 1.096 ocorrências registradas durante todo o mês de julho.

A situação continuou crítica nos dias seguintes. No sábado (15), foram atendidos 59 incêndios em diferentes regiões do DF. Nas últimas semanas, as chamas atingiram a Reserva Biológica do Guará, provocaram a retirada de quase 150 crianças de uma creche, chegaram perto do campus da UnB em Ceilândia e mobilizaram uma aeronave na reserva do Zoológico de Brasília. Também houve ocorrências próximas à linha do metrô em Águas Claras. Os dados foram divulgados pelo CBMDF.

O avanço das queimadas ocorre em meio a temperaturas elevadas e índices extremos de umidade. Em 10 de agosto, o Gama registrou 34,3°C e umidade relativa de apenas 13%, os piores números observados no DF em 2026. Em Brasília, a umidade chegou a 18%, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia.

Agosto e setembro concentram os piores registros

O histórico mostra que a situação ainda pode se agravar. Em 2024, quando Brasília enfrentou a maior estiagem de sua história, com 164 dias consecutivos sem chuva, o DF contabilizou 8.545 incêndios em vegetação e mais de 22 mil hectares atingidos pelo fogo. Agosto teve 2.065 ocorrências e setembro chegou a 2.851.

Em 2025, o número total caiu para 6.488 registros, redução de aproximadamente 24% em relação ao ano anterior. Mesmo com a melhora, agosto permaneceu como o mês mais crítico, com 1.826 incêndios, seguido por setembro, com 1.361. Os números confirmam que o período entre agosto e setembro exige o maior nível de mobilização das equipes e de atenção da população. Confira o histórico da Operação Verde Vivo.

A combinação de vegetação ressecada, solo sem chuva há várias semanas, ventos mais fortes durante a tarde e umidade abaixo de 20% permite que uma pequena chama avance rapidamente. Uma queima de lixo, restos de poda ou capim pode se transformar em um incêndio de grandes proporções em poucos minutos.

El Niño pode prolongar cenário crítico

O alerta aumentou com a confirmação do El Niño em junho. O segundo boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por INPE, Inmet, Cemaden e outros órgãos federais, aponta 100% de probabilidade de permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027, com alta possibilidade de alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão.

Para o trimestre de agosto, setembro e outubro, os modelos indicam chuvas abaixo da média no centro-norte do Brasil e temperaturas acima do normal durante o segundo semestre. Esse cenário pode atrasar ou tornar mais irregular a chegada das primeiras chuvas, mantendo a vegetação seca por mais tempo e aumentando o risco de novos incêndios.

A atualização mais recente da agência climática dos Estados Unidos, publicada em 13 de agosto, indica probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte no fim de 2026 e início de 2027. Para o trimestre entre outubro e dezembro, a NOAA calcula 69% de possibilidade de o fenômeno superar a intensidade dos eventos registrados desde 1950. A própria agência ressalta, porém, que os impactos regionais não são automáticos e dependem de outros fatores atmosféricos.

O El Niño, sozinho, não provoca uma queimada. Ele cria condições mais favoráveis para que o fogo se espalhe, enquanto a maioria das ocorrências no DF começa por ação humana, seja intencional ou por imprudência.

Bombeiros trabalham com o pior cenário

Durante entrevista ao programa Vozes da Comunidade, o tenente-coronel Marcelino Costa, do Grupamento de Proteção Ambiental do CBMDF, afirmou que a corporação decidiu antecipar a preparação para uma estiagem severa.

“Nós nos preparamos para o pior cenário”, declarou. O militar também fez um apelo direto à população: “Não usem mais fogo para fazer limpeza de entulho ou restos de poda”.

Marcelino explicou que o CBMDF utiliza imagens de satélites da Nasa atualizadas em intervalos de aproximadamente 15 minutos, drones com câmeras térmicas e monitoramento em tempo real das viaturas. Os equipamentos permitem identificar focos de calor, localizar acessos seguros e encontrar pontos ainda quentes durante o rescaldo, evitando que o incêndio volte a crescer.

A Operação Verde Vivo 2026 mantém entre 170 e 200 bombeiros por dia dedicados exclusivamente aos incêndios florestais. A estrutura inclui 12 postos avançados, até 35 viaturas especializadas, dois aviões Air Tractor, um helicóptero e drones. Em uma ocorrência de grande proporção, a corporação poderá mobilizar até 1,5 mil militares.

O que fazer — e o que deve ser evitado

A principal recomendação é não utilizar fogo para limpar terrenos, eliminar lixo, capim ou restos de poda. Também é necessário evitar fogueiras, soltar balões e jogar bitucas de cigarro em rodovias, terrenos baldios ou áreas de vegetação seca.

Proprietários de chácaras e imóveis próximos a áreas verdes devem manter os terrenos limpos e o mato baixo, retirar materiais inflamáveis e buscar orientação técnica para a abertura de aceiros. O trabalho deve ser feito com roçadeiras, tratores ou ferramentas adequadas, e nunca com uma queima improvisada.

Ao identificar fumaça ou fogo em vegetação, a população deve ligar imediatamente para o 193, informar a localização, um ponto de referência, o tamanho aproximado do foco e se existem casas, animais, postes ou linhas de transmissão ameaçados. Ninguém deve entrar em áreas tomadas pela fumaça ou tentar enfrentar sozinho um incêndio de grandes proporções.

Provocar incêndio em mata ou floresta é crime ambiental. A pena prevista é de dois a quatro anos de reclusão e multa. Quando o incêndio ocorre por imprudência, negligência ou imperícia, a legislação prevê detenção de seis meses a um ano, além de multa.

Fumaça também ameaça a saúde

Além dos danos ao Cerrado, a fumaça contém partículas finas e gases que irritam as vias respiratórias. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com asma, bronquite, rinite ou doenças cardiovasculares são os grupos mais vulneráveis.

A Secretaria de Saúde orienta aumentar o consumo de água, utilizar soro fisiológico nas narinas, umidificar os ambientes e evitar exercícios ao ar livre entre 10h e 16h. Dificuldade para respirar, chiado ou dor no peito, tontura intensa e febre persistente exigem atendimento médico.

Com agosto ainda pela metade, a tendência é de continuidade do tempo quente e seco. A tecnologia ajuda os bombeiros a detectar o fogo mais cedo, mas a redução das queimadas depende principalmente de evitar que a primeira chama seja acesa.