Muito discurso, pouca entrega: Grass tenta vender mudança com roteiro antigo

Pré-candidato do PT promete priorizar saúde, educação, emprego, combate ao feminicídio e transporte, mas enfrenta o desafio de convencer o eleitor de que o DF precisa recomeçar do zero mesmo diante de entregas dos governos Ibaneis e Celina

*Imagem gerada por IA

Leandro Grass lançou sua pré-candidatura ao GDF tentando vestir novamente o figurino da mudança. No discurso, o petista colocou a saúde pública como prioridade e também citou educação, emprego, combate ao feminicídio, transporte e saneamento como áreas centrais de sua campanha. A estratégia mira diretamente o legado dos governos Ibaneis Rocha e Celina Leão, mas esbarra em uma dificuldade política: as áreas escolhidas por Grass são justamente algumas das que acumulam obras, programas e ações concretas nos últimos anos.

A tentativa de vender Brasília como uma cidade parada pode soar mais como roteiro eleitoral do que como retrato fiel da realidade. Em 2022, Grass já tentou se apresentar como alternativa ao atual grupo político, mas foi derrotado ainda no primeiro turno. Agora, volta ao palanque com o mesmo enredo: crítica ampla, promessa de reconstrução e discurso de que o DF precisa recomeçar.

Saúde

O problema é que, desta vez, o discurso terá pela frente uma lista extensa de entregas. Na saúde, principal bandeira escolhida pelo pré-candidato, o GDF ampliou a rede de atendimento. Ibaneis Rocha afirmou, em entrevista ao programa Vozes da Comunidade, que recebeu o DF com seis UPAs, construiu sete novas unidades e deixou outras sete em construção para serem entregues durante a gestão de Celina Leão.

Os dados oficiais reforçam esse ponto. O GDF informou que sete UPAs estão em construção ou preparação, em Águas Claras, Água Quente, Estrutural, Guará, Sol Nascente, Taguatinga e Arapoanga. O investimento contratado para seis delas é de R$ 117 milhões. Com a conclusão, a rede passará de 13 para 20 UPAs no DF.

Ibaneis também citou a entrega de mais de 30 unidades básicas de saúde, a ampliação da capacidade de atendimento, a reformulação do IgesDF, o aumento no número de cirurgias no Hospital de Base e no Hospital de Santa Maria, além da implantação de atendimento pediátrico em UPAs. Segundo ele, esse tipo de atendimento não existia antes nessas unidades.

Celina, por sua vez, tenta mostrar que sua gestão não será apenas continuidade automática. Em entrevista ao Vozes da Comunidade, a governadora afirmou que pretende cortar despesas que não considera prioritárias para concentrar recursos em áreas essenciais, especialmente saúde. Ela citou a necessidade de levar serviços como ressonância magnética para regiões administrativas e defendeu mais transparência sobre as filas dos hospitais.

Outro gesto usado por Celina para reforçar essa prioridade foi a destinação de R$ 25 milhões que seriam aplicados em comemorações ligadas ao aniversário de Brasília para a rede pública de saúde. Na entrevista ao Vozes da Comunidade, a medida foi citada como uma decisão bem recebida pela população, justamente por deslocar recursos de uma ação comemorativa para uma área considerada mais urgente. A governadora, ao responder sobre o tema, afirmou que prepara ações para exames de imagem e cirurgias eletivas, com foco em reduzir filas e dar mais eficiência ao atendimento.

A governadora também afirmou que o governo já começou a divulgar filas da saúde e que pretende enfrentar o problema com medidas práticas. Segundo Celina, há ações em preparação para exames de imagem e cirurgias eletivas, com envio de projeto à Câmara Legislativa para ampliar a capacidade de atendimento por meio de credenciamento. A ideia, segundo ela, é atacar principalmente procedimentos de baixa complexidade que incomodam a população e represam a rede pública.

Educação

Na educação, Grass também tenta se apropriar do discurso de mudança, mas encontra um governo com números e programas para contrapor. Ibaneis afirmou que, quando assumiu o GDF, havia cerca de 26 mil crianças fora das creches. Segundo ele, esse número caiu para menos de mil, com abertura de aproximadamente 25 mil vagas e construção de 27 creches.

Além disso, o governo criou programas como o Cartão Material Escolar e o Cartão Uniforme, que beneficiam famílias da rede pública e movimentam o comércio local. A lógica defendida por Ibaneis é que a política social, além de garantir dignidade ao estudante, também fortalece papelarias, malharias e pequenos negócios do DF.

Celina também abordou a educação em sua entrevista, mas com foco em inclusão. A governadora afirmou que pediu planejamento para ampliar centros de referência e estruturas voltadas a estudantes com deficiência, transtornos e necessidades educacionais especiais. Ela citou ainda a nomeação de 3 mil monitores durante período em que esteve como governadora interina, defendendo que essa é uma área que pretende priorizar.

Empregos

No campo do emprego, o discurso de Grass também enfrenta dados positivos. O DF abriu 29.689 vagas formais no primeiro semestre de 2025, o melhor resultado para o período desde o início da série histórica, em 2020, segundo dados do Novo Caged divulgados pelo GDF.

Além dos empregos formais, os governos Ibaneis e Celina têm apostado em programas de qualificação. Ibaneis citou o QualificaDF, que, segundo ele, capacita mais de 30 mil pessoas por ano, e o RenovaDF, que une formação profissional, bolsa, transporte, alimentação e recuperação de espaços públicos. O GDF também lançou novos ciclos do RenovaDF, apresentado como um dos maiores programas de capacitação profissional do país.

A área social também foi usada por Ibaneis como vitrine de sua gestão. Ele citou a ampliação dos restaurantes comunitários, a redução do valor da refeição para R$ 1, a oferta de café da manhã, almoço e jantar e o funcionamento aos fins de semana e feriados. Também destacou programas como Prato Cheio, DF Social, Cartão Material Escolar e Cartão Uniforme.

Combate ao feminicídio

No combate ao feminicídio e à violência contra a mulher, outro tema citado por Grass, Celina tem um discurso diretamente ligado à sua trajetória. Na entrevista ao Vozes da Comunidade, a governadora afirmou que o DF criou programas como auxílio-aluguel para mulheres em situação de violência, Viva Flor e ações de capacitação. Segundo ela, 70% das pessoas capacitadas em programas como RenovaDF e QualificaDF são mulheres.

Celina também defendeu uma postura mais dura na resposta policial a casos de violência doméstica. Ao falar com novos policiais militares, a governadora afirmou que agentes não devem atuar como “conciliadores” em casos de agressão, mas cumprir o dever de conduzir o agressor à delegacia quando houver flagrante. A fala reforça uma tentativa de associar sua gestão à proteção direta das mulheres.

Transporte e mobilidade

No transporte e na mobilidade, o atual grupo político também tem entregas para apresentar. Ibaneis citou o Túnel de Taguatinga como uma das principais obras de sua gestão. Segundo ele, a intervenção mudou a rotina de moradores de Taguatinga, Ceilândia, Samambaia e Sol Nascente, além de revitalizar o centro da cidade e incentivar o retorno de empresas para a região.

O ex-governador também mencionou duplicações, viadutos e obras viárias em regiões como Jardim Botânico, Itapuã, Paranoá, Sobradinho, Planaltina, Recanto das Emas e Riacho Fundo II. A estratégia do grupo é clara: enquanto Grass fala em mudança, Ibaneis e Celina tentam responder com obras que impactam diretamente o deslocamento diário da população.

A gestão Celina também avançou na renovação da frota do transporte público. Em maio, o GDF entregou 85 ônibus novos ao sistema de transporte coletivo, com previsão de beneficiar mais de 245 mil passageiros por dia. Os veículos contam com tecnologia Euro 6, menos poluente, e passaram a atender regiões como Samambaia, Recanto das Emas, Riacho Fundo, Ceilândia, Guará e Taguatinga Sul.

Outro destaque é o programa GDF na Sua Porta, criado para levar a estrutura do governo diretamente às regiões administrativas. Na entrevista, Celina afirmou que levou secretários para despachar nas cidades e citou o Itapoã como exemplo. Segundo ela, foram dadas 17 ordens de serviço, incluindo novo asfalto para a Avenida Del Lago, 30 paradas de ônibus, recuperação de parquinhos, campo sintético e unidade básica de saúde. A governadora apresentou o programa como uma forma de aproximar o Buriti da população, ouvir demandas locais e acelerar soluções nas cidades.

O petista tenta construir uma narrativa de abandono, mas o atual grupo político tem obras, programas e números para disputar essa memória com o eleitor. A eleição, portanto, não será apenas ideológica. Será também uma disputa entre promessa e entrega.

Grass tem discurso, militância e palanque nacional. Mas terá que mostrar mais do que crítica ao governo. Terá que explicar o que fez, por onde passou, que o credencia a prometer uma transformação que seus adversários dizem já estar em curso.

No fim, a pré-candidatura de Grass nasce com barulho, mas também com uma contradição. Ele tenta vender mudança justamente nas áreas em que Ibaneis e Celina apresentam resultados. O roteiro é conhecido: criticar tudo, prometer recomeço e tentar convencer o eleitor de que Brasília precisa ser reconstruída do zero.