Arruda mira jovens que não viram a Caixa de Pandora, mas inelegibilidade ainda assombra candidatura

Ex-governador tenta voltar ao GDF em 2026 diante de uma geração que não acompanhou o escândalo de 2009, enquanto sua situação jurídica ainda pesa no debate eleitoral

Elza Fiúza/Agência Brasil

A tentativa de José Roberto Arruda de retornar ao GDF em 2026 acontece em um cenário marcado por disputa de narrativa, memória política e questionamentos jurídicos. O ex-governador busca voltar ao centro da política local diante de uma geração que não acompanhou de perto um dos episódios mais marcantes da história recente do DF: a Operação Caixa de Pandora, deflagrada em 2009.

Parte dos jovens que estará apto a votar na próxima eleição era criança pequena ou sequer havia nascido quando o escândalo veio à tona. Um eleitor de 16 anos em 2026 nasceu por volta de 2010. Já um jovem de 18 anos nasceu por volta de 2008. Na prática, muitos eram bebês, crianças ou ainda não tinham idade para compreender a crise política que dominou o noticiário nacional e colocou o governo Arruda no centro das atenções.

Esse recorte abre espaço para uma disputa de memória. Enquanto Arruda tenta reconstruir sua imagem pública e se apresentar como um gestor experiente, seu passado político e judicial volta a ser lembrado no debate eleitoral. A Caixa de Pandora investigou um esquema de pagamento de propina à base aliada do governo do DF, segundo registro do STJ.

Para o eleitorado mais jovem, o caso pode parecer distante. No entanto, a tentativa de retorno do ex-governador ocorre em meio a lembranças ainda presentes na política do DF e a discussões sobre os efeitos daquele episódio na trajetória pública de Arruda.

Além do desgaste político, a movimentação do ex-governador esbarra em sua situação jurídica. A possível candidatura ainda é cercada por debate sobre a Lei da Ficha Limpa. Em janeiro de 2026, a Procuradoria-Geral da República se manifestou no STF contra trecho da mudança na legislação usado por Arruda para defender sua elegibilidade.

Na prática, Arruda tenta enfrentar duas disputas ao mesmo tempo. A primeira é política, voltada ao eleitorado e especialmente a uma geração que não viveu a Caixa de Pandora. A segunda é jurídica, nos tribunais, onde sua volta às urnas ainda pode ser questionada.

Esse contraste deve marcar a pré-campanha. De um lado, o ex-governador tenta falar de futuro, obras e experiência administrativa. De outro, permanecem as marcas de um passado que ainda pesa na memória política do DF e nas discussões sobre sua elegibilidade.

A movimentação de Arruda como pré-candidato mostra que ele pretende voltar ao centro da disputa pelo Buriti. A dúvida, porém, é se conseguirá se apresentar como alternativa a uma geração que não viu seu governo cair ou se a inelegibilidade e a Caixa de Pandora continuarão assombrando sua candidatura.

Para os jovens que não acompanharam aquele período, a eleição de 2026 pode trazer de volta uma discussão sobre a memória política do DF. Para Arruda, o desafio será convencer o eleitor de que o passado ficou para trás. Para o debate público, a disputa deve servir como teste sobre até onde a política local está disposta a lembrar — ou esquecer — um dos episódios mais marcantes da história recente de Brasília.